PERDOA-ME POR ME TRAIRES

Publicado em 16/01/2016 às 13h38

 

 

 

                                                                               

 Lembrei deste inspirador título de Nelson Rodrigues, por conta do agito provocado do feicebuque à grande mídia, pelo pequeno surto de ciúmes – o monstro de olhos verdes -, de uma de nossas mais descoladas cantoras.

 

No palco, uma noite, em meio à apresentação musical, microfone em riste, ela se dirige ao marido que conversa com uma mulher, e cobra: “quem é ela, papai?”

 

O agito, os entendimentos, os fru-fru-frus em torno multiplicaram-se em múltiplas direções. Houve quem elogiasse a celebridade por se humanizar, seja através de sua simplicidade maria-mulher, seja de seu amor demasiado, seja de seu ciúme incontrolável.

 

E houve também aqueles que, natural e geralmente movidos e mordidos pelo outro bichinho verde, o da inveja, recriminaram a ganância exagerada de quem “já tem tudo” e ainda quer mais: ela é linda, famosa, sensual, carismática, amada, e com CIÚMES??? Essa rainha de copas nunca se sacia???

 

Eu, que nunca verdadeiramente me interesso por ela ou por sua música (talvez por conta de minha arrogância rockeira anos 1970), dou uma incrementada na minha fantasia e imagino-a chegando para uma sessão de mediação individual comigo.

 

 

 

Ela talvez falasse, como de fato falou para a imprensa, de que tudo não passara de uma brincadeira, que ela jamais teria imaginado que a sua fala terminasse trazendo todo aquele constrangimento pra ela, pro marido; que se sente injustiçada, e cogita, inclusive, entrar com uma representação contra a mulher pivô do acontecido.

 

Mas talvez não, talvez ela simplesmente falasse da mágoa pelo marido pública e aparentemente se envolver com outra mulher, apesar da prioridade da sua imagem de celebridade que, em última instância, é patrimônio do casal. O pacto entre eles do respeito à imagem, diria ela na minha fantasia, é sem dúvida, um ato, um gesto, um sinal de amor e reconhecimento dele para com ela. E este, naquela noite, fora violado.

 

Chegada a minha hora na nossa sessão imaginária, acolho-a reconhecendo o enorme esforço que ela precisou recrutar naquela noite, em meio à sua apresentação e à manutenção de sua esplendorosa imagem de sucesso. Como deve ter sido exaustivo entrar em contato com a dor da punhalada traiçoeira do parceiro de pacto, reagir e administrar essa dor e, ainda, reagir ao sapo engolido, “ficando por cima” – quem é essa?- e cobrando o pacto violado – papai.

 

Ela me olha surpresa ao se dar conta do enorme gasto de energia daquela malfadada cena, e começa a entender as ondas de repercussão provocada por todo aquele investimento. Ela entrou, finalmente, em contato com as profundezas que a ponta do iceberg oculta: sua imensa intensa onipotente necessidade de controle do palco, dos músicos, do público, da imprensa, do marido.

 

Encarnando Nelson Rodrigues, então, respondo pelo marido à sua pergunta quem é ela, papai?    

“Não sei quem ela é; só sei que ela, não é você, ufa!”

 

                                                                                                                       Annie Dymetman 

 

  

voltar para Blog

left show tsN uppercase bsd b01s fwB|left fwR tsN uppercase bsd b01s|left show tsN b01s bsd uppercase fwB|bnull||image-wrap|news uppercase b01 bsd|fsN fwR uppercase|b01 c05 bsd|login news fwR uppercase|tsN fwR uppercase|fwR b01 bsd normalcase|content-inner||